sábado, 19 de dezembro de 2009

Um conto de natal


1- Café da Manhã

_ Bom-dia! - diz a mãe ao entrar no quarto pela manhã.
__ Bom-dia. - responde o filho sem nenhuma empolgação ainda coçando os olhos com preguiça.
_ Hoje, depois da escola vamos ao shopping fazer compras de natal?
__ Eu quero aquele boneco superhiperirado que vem com uma arma de canhão laser e uma espada tridimensional que faz barulho, certo?
__ Veremos.
_ Pô, mãe! Qual é? Estudei pacas o ano inteiro, ajudei com os serviços da casa e fui legal com o Pedro. Só por ter sido legal com o Pedro eu mereço o boneco e bônus extra. – diz o menino apontando para o irmão mais novo que distraidamente coçava a cabeça sem nada dizer.
__ Não fez mais que obrigação. E não se refira com desdém ao seu irmão. Você já foi pequeno, sabia?
__ Mas não tinha irmão. Ah, mãe...
__ Vou pensar.
__ Hunf!


2 – Indo Para o Shopping


__ Pelo amor de Deus, esse trânsito está um caos! – buzinas soando por toda parte, congestionamento quilométrico, aproximadamente cinco da tarde do dia 23 de dezembro.
__ Mãe, o Lipe pegou o meu dinossauro.
__ Felipe devolve o dinossauro.
__ Foi ele quem começou pegando o meu carrinho.
__ Pedro devolve o carrinho.
__ Foi ele. – diz Pedro olhando desafiador para Felipe.
__ Foi você. – reponde Felipe no mesmo tempo.
__ Foi ele. – tom da voz aumentando.
__ Você. – a mãe olha pelo retrovisor impaciente com a discursão. As buzinas cada vez mais alto e um calor insuportável.
__ Devolve meu dinossauro. - gritava Pedro.
__ Devolvo nada.
__ Devolve!
_ Não!
__ VOCÊS QUEREM PARA DE BRIGAR. – gritou a mãe como uma leoa enfurecida.
__ A mamãe ficou nervosa... Viu o que você fez? – sussurrou Pedro.
__ Foi você.
__ Você.
__ AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! – silêncio.


3 – Estacionamento do Shopping


__ Finalmente chegamos! Agora é só arranjar uma vaguinha.
__ Ali mãe!
__ Perfeita! Ah, aquele cara entrou na frente. Vamos procurar outra.
__ Mãe isso foi sacanagem do cara!
__ Felipe não fale palavrão! Vamos achar outra.


Vinte minutos depois...


__ Viu? Olha aqui, estacionados e prontos para irmos às compras.
__ No terceiro piso?- diz Felipe com cara de deboche.
__ Que tem isso?
__ Mamãe, quero fazer xixi. – diz Pedro puxando a mãe pela saia.
__Já vamos entrar o elevador já está vindo.
__ Mas eu tô apertado.
__ Segura um pouquinho, querido.
__ Pirralho só enche.
__ Não fala assim dele. Vamos de escada.
__ Tá quase saindo. – diz Pedro com cara apertando os joelhinhos.
__ Íamos estacionar ali se aquele infeliz não tivesse tomado nossa vaga. E já estaríamos lá dentro... – a mãe olha para Pedro com um sorriso estranho e em seguida para Felipe que se precipita.
__ Vem Pedro! Vamos lavar as portas daquele carro.
__ É! Vamos.


4 – No Shopping

__ Menino cuidado para não se perderem!
__ Eu estou aqui, mãe.
__ Eu também, mamãe.
__ Está lotado hoje, isso aqui.
__Primeiro vamos comprar o meu boneco, né mãe? – disse Felipe apontando para a loja de departamento.
__ Primeiro quero ir à casa do papai Noel. – intimou Pedro.
__ Depois.
__ Não. Agora!
__O papai Noel pode esperar. – a mãe ao lado das duas crianças que discutiam respirando fundo para controlar-se. – Papai Noel nem existe.
__ Cala a boca, Felipe! – intervém a mãe vendo os olhos de Pedro enchendo-se de lágrimas. – Vamos ver a casa do papai Noel primeiro e DEPOIS compramos o seu boneco.
__ @#%$*!!!!
__ Felipe!


5 – Na Casa do Papai Noel

__ Que lindo! – exclama a mãe olhando as cores e forma de bonecos e anjos que enfeitam o shopping. – Vamos fazer uma foto.
__ Ah, mãe!
__ Felipe só uma. Aqui perto dessa rena, assim eu pego também a casa do papai Noel.
__ Eu posso subir na rena, mamãe? – diz Pedro já em posição para cavalgar o boneco.
__ Não, filho!
__ Então posso abraçar?
__ Abraçar pode, mas não ponha...
__ A cabeça da rena caiu! – exclama Felipe caindo na gargalhada ao ver o susto do irmão.
__ Eu não queria machucar a rena... – os olhinhos de Pedro cheios de lágrimas iam da mãe ao irmão e daí para a rena, cheio de compaixão e culpa.
__Você não machucou a rena, Pedro. Você a matou! Ela agora vai ser a rena-sem-cabeça. – disse Felipe ainda rindo do desespero do irmão.
__ Não fale assim, Felipe! – disse a mãe olhando a cabeça da rena pendurada, sem saber se tentava consertar o bicho, consolava o pequeno Pedro ou ria de toda a situação. – Pedro, ela não morreu é só um boneco. Vamos pôr a cabeça assim, no lugar. Deus a cabeça não fica! – risos de Felipe, choro de Pedro, desespero da mãe. – Será que vou ter que pagar por isso?
__ Putz! Assassino de Rudolf, você não ganhará presente esse ano. – sentenciou Felipe.
__ Manhê!
__ Vai sim, Pedro. Felipe pára com isso e venha me ajudar a pôr essa cabeça aqui.
__ Senhora?
__ Ó, Senhor! – diz a mãe olhando um homem uniformizado atrás dela.
__ Eu sou da administração do shopping pode deixar que cuidaremos disso. Afinal, acidentes acontecem.
__ Me desculpe, moço. – diz a mãe envergonhada diante do sorriso paciente do funcionário do shopping.
__ Tudo bem, senhora. Tudo bem. Pode ir agora e boas compras.
__ Obrigada.


6 – A Foto Com o Papai Noel

__Que saco! Pra que tirar essa foto? Que saco, mãe!
__ Felipe, ele é pequeno e precisa dessas recordações. Você já teve sua fase, respeite a dele.
__ Mãe, isso é ignorância. Estamos nessa fila a quinze minutos esperando esse velho, que pode ser um pedófilo disfarçado, pegar o Pedrinho no colo e sabe-se lá fazer o quê...
__ Que isso menino?
__ Mãe, só um pedófilo ficaria vestido com uma roupa dessa quente pra burro, sorrindo, enquanto crianças remelentas o enchem de perguntas idiotas, apertos, puxões e beijos babados de pirulito. Pense bem mãe: você se sujeitaria a isso?
__ Vamos embora, Pedro. – diz a mãe puxando firme a mão do menino, enquanto olhava desconfiado para a cara do papai Noel que beijava amavelmente uma menininha sardenta. – Fotos com papai Noel não são legais.

7- Na Loja

__ Oba! Vamos lá comprar o meu boneco.
__ Primeiro a árvore e os enfeites.
__ Mas por quê?
__ Porque temos que escolher com carinho e o seu boneco é sempre o mesmo.
__ Ah ta! Vamos.
__ Cadê o Pedro? – diz a mãe olhando ao redor e dando a falta do menino.
__ Pedro! – grita Felipe.
__ Pedro? – grita a mãe.
__ O papai Noel pegou ele por causa da rena.
__ Pare de graça, Felipe. Temos que achar seu irmão.
__ PEDRO!
__ Senhora?
__ O senhor novamente? Olha, perdi meu filho e agora não é um bom momento para falar da cabeça da rena.
__ Não é isso. Aquela criança ali é filho da senhora? – diz o funcionário do shopping apontando para um menino que subia rindo-se a valer pela árvore que enfeitava o hall do shopping.
__ CARACA!
__ Felipe, pare de falar palavrão.
__ Caraca não é palavrão.
__ Pedro, meu filhinho desça já dessa árvore. Como foi que você subiu aí? Moço, o senhor poderia... – apontou a mãe ainda boquiaberta para a mesma árvore.
__ Claro, senhora! – responde o funcionário do shopping esforçando-se para manter-se calmo.
__ Desculpe.
__ Boas compras. – responde novamente o funcionário do shopping devolvendo Pedro a sua mãe.

8 – A Árvore

__ Essa aqui é a ideal. Nem tão grande nem muito pequena. Agora vamos escolher os enfeites?
__ Põe bolas coloridas. – sugeriu Felipe.
__ Prefiro papai Noel. – diz Pedro.
__ Podemos pôr os dois. – diz a mãe.
__ Vai ficar parecendo carro alegórico.
__ Eu gosto de anjos. O que acham?
__ Mas vai ter papai Noel também, né?
__ É muita coisa, Pedro. – disse Felipe – Anjos é legal e combinam com bolas.
__ Não é muita coisa. – retruca Pedro.
__ É sim.
__ Não é.
__ CHEGA! – interfere a mãe antes que a discurssão de Pedro e Felipe se estendesse. – Os dois calados. Levaremos sinos e enfeites, pronto. Usos, coelhos, borboletas... Nem bolas, papais noéis ou anjos.
__ Por mim... Tudo bem. – concorda Pedro.
__ Puxa-saco. – provoca, Felipe.
__ Não sou.
__ É sim!
__ AAAAAAAAAAAH!
__ viu o que você fez? A mamãe ficou nervosa.
__ Silêncio os dois, por favor.

9 – A Roupa de Pedro

__ Agora vamos ao boneco!

__ Felipe, vamos comprar uma roupa para o Pedro e depois vamos ao seu boneco.
__ Hunf!
__ Eu quero essa roupa. – diz Pedro apontando para um conjunto de calça e casaco de moleton que estava em liquidação em uma banca.
__ Mas essa não é uma roupa legal para o natal, Pedrinho. Vamos ver essa aqui.
__ Mãe, essa nem tem dinossauro.
__ Meu anjo, ela tem carros. Olha que linda!
__ Mas eu prefiro dinossauros.
__ Mas essa é de inverno e estamos no verão.
__ Vamos levar uma do Jason para ele, mãe. – diz Felipe com um riso no canto dos lábios.
__ Por que?
__ Ele não é assassino de renas? - a mãe controla o riso, mas o pequeno Pedro cai em choro.
__ Felipe! Pedrinho vamos levar a roupa de carros, está bem?
__ Mas eu quero a de dinossauro.
__ Escuta aqui, moleque! - disse a mãe falando firme e olhando mais firme ainda para Pedro. – Você vai levar a de carros porque os dinossauros comem rena e você já está muito sujo com o papai Noel por causa do Rudolf. Você não vai querer que ele saiba que você anda por aí com uma roupa de quem come rena, não é?
__ Pegou pesado, dona Elisa. Gostei de ver!
__ Cala a boca, Felipe!


10 – O Boneco

__ Pegue o seu boneco.
__ Até que enfim! – e Felipe sai em disparada pela loja. Voltando rapidamente com uma caixa a qual exibia com orgulho. – É esse!
__ Então vamos...
__Senhora?
__ Pois não.
__ Eu já tinha pegado esse boneco. E não sei se a senhora sabe, mas esse é o último da loja. Então, por favor, queira me devolver.
__ Não!
__Como não?
__ Não tem o seu nome nele e ele estava ali na prateleira.
__ Eu o coloquei ali, enquanto fui buscar um carrinho para pôr as minhas compras.
__ Pois saiba que: achado não é roubado e quem perdeu foi relaxado. Se queria o boneco, segurasse.
__ A senhora vai querer brigar por causa de um simples boneco?
__ Se é um “simples boneco” você não se importará que meu filho fique com ele.
__ Mas eu o estou comprando para o MEU filho.
__ E eu estou comprando para o MEU. Comprar este boneco abominável virou uma questão de honra. Chame a polícia se for o caso. Vamos aos tribunais. Mas este boneco... – dizia a mãe em tom de discurso diante das pessoas que já se acercavam para saber o que acontecia. – Este boneco feio... Este boneco aqui... Será seu. – sentenciou apontando o boneco para Felipe como um rei passando sua coroa ao príncipe herdeiro.
__ A senhora é louca!
__ Sou sim. Estou maluca! Alucinada! Descabelada! Ensandecida! E infeliz daquele que tentar tirar esse boneco de minhas mãos.
__ Senhora...
__ O QUE É? – gritou a mãe já completamente enfurecida.
__ Calma! – era um funcionário da loja com um sorriso timidamente assustado. – Eu só quero avisar que chegou uma nova remessa desses bonecos, assim sendo você pode ficar com esse.
__ Obrigada. – disse a mãe sentindo-se diminuir diante de todos que olhavam para ela.

11- O Lanche


__ Viu o mico que você me fez pagar? – diz a mãe saindo de cabeça baixa de dentro da loja de departamento.
__ Mico? Mãe você pagou um King Kong. Foi horrível.
__ Se você, Felipe, abrir sua boca mais uma vez hoje, você vai levar uma surra no mínimo HOR- RO- RO- SA.
__ Hum rum. – resmungou Felipe olhando os olhos da mãe que soltavam da órbita de tanta raiva.
__ Quero comer um daqueles lanches que vem com um bonequinho do “Doguinho, o cão zinho fofo”, mamãe.
__ Pedro, olha aquela fila, meu filho! Vamos comer outra coisa.
__ Mas quero o Doguinho, mamãe.
__ Filho...
__ Mamãe... - e finalmente Pedro apela para o olhar meigo e sua mãe cede.

Dez minutos depois...

__Um lanche do Doguinho, por favor. Um lanche completo. E... O que você quer Felipe?
__ ??? _ Felipe dá de ombros.
__ Que? Que cara é essa?
__ !!! _ Felipe balbucia algo com os lábios cerrados.
__ Menino fala o que quer.
__ ... – Felipe olha para a mãe como que não entendendo. E fala algo no ouvido de Pedro.
__ Anda!
__ Mamãe, o Lipe falou que se ele falar você disse que ia bater nele.
__ E quando foi que você começou a me obedecer? _ disse a mãe olhando para Felipe que novamente cochichava ao ouvido de Pedro.
__ Ele falou que desde que viu nos seus olhos a surra horrorosa.
__ Felipe, fale comigo AGOOOORA!
__ Eutambémqueroumlanchecompleto. _ falou Felipe de uma só vez.
__Senhora lamento informar, mas a miniatura do Doguinho acabou. Podemos substituir.
__ Está de brincadeira? Eu estou a meia hora nessa droga de fila por causa dessa porcaria e você quer substituir o Doguinho? Francamente!
__Oh, oh... _ disseram ao mesmo tempo Felipe e Pedro.
__ Essa sua espelunca tinha que ser fechada. Propaganda enganosa é crime, sabia? Tenho direitos de consumidora defendida por lei, sabia? Se anunciaram a porcaria dessa cão cabeçudo tinha que ter a porcaria do cão desse cão cabeçudo para pôr no lanche, sabia?
__Substitui pelo Palhacito, moça. – disse timidamente Pedro.
__ Também não tem, querido.
__ Estão vendo? Não tem nada nessa joça. – falava impaciente a mãe.
__ Tem o Gordinho? – continuou Pedro tentando descolar um brinde para seu lanche.
__ Não.
__ Vejam isso, senhores. Absurdo! Absurdo! Absurdo! – a mãe já não diferenciava suas atitudes e parecia mais criança que o Pedro que ainda negociava seu lanche tranquilamente, enquanto a fila na lanchonete só aumentava.
__ Mas temos esse boneco aqui. Ele tem uma espada tridimensional q faz barulho e uma arma de canhão laser. – disse a atendente da loja mostrando a Pedro um boneco igual ao de Felipe.
__ Quero esse. – decidiu-se Pedro.
Felipe e a mãe olhavam boquiabertos um para o outro, depois para o boneco. E não disseram mais nada desde então.



12- A Volta


__ Finalmente vamos para casa. – disse a mãe.
__ Nem fala.
__ Onde foi mesmo que estacionei? – disse a mãe olhando admirada o número a mais de carros no estacionamento.
__ Ah mãe! A senhora não marcou o local?
__ Como eu ia imaginar que isso ia ficar assim, Felipe?
__ Com esse peso todo mãe, a gente vai ficar procurando por horas.
__ Não reclama menino. Vamos! Vamos! Vamos!
Uns minutos depois...
__ Nem foi tão difícil, foi?
__ Não. – responde Felipe revirando os olhos.

Enfim entram no carro e o pequeno Pedro logo começa cochilar. Enquanto Felipe e a mãe vão pelo trânsito cantando canções de natal, acompanhados pelos anjos que os protegeram a tarde inteira.

(Waleska Zibetti)

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Confira uma entrevista com esta fenomenal escritora feita para o site Recanto das letras?
http://recantodasletras.uol.com.br/entrevistas/1136421

3 comentários:

  1. Realemente essa história faz rir. Eu rio toda vez que releio. E olha que foi eu quem escrevi. Te adoro, maluca! Beijos.

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  2. kkkkkkkkkkkkkkkkkk
    A cada conto uma rolada de risos!
    Adorei!

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